quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Corpo

As canelas em X eram as cruzadas que me cabiam desbravar. As coxas macias junto ao abdômen e a água que escorria pelo corpo redonducho até formar uma poça no púbis, entre as pernas e a barriga. Os pelos todos alinhados pela fina corrente que envolvia todo o corpo. O corpo. Mesmo sem se esticar pelos limites da banheira, nunca coubera tão bem em lugar algum... Que aperto gostoso que era. Macio, mas rígidozinho e tão bonito, uma aurora lilás como a vespertina, o romance estelar.

Os toques rosados no corpo moreno, aliás, eram todas nebulosas a seres exploradas vagarosamente e todos os sabores deviam ser degustados. As mãos, os dedos que, mesmo tão grandes, eram tão sutis e caminhavam suavemente pelo meu corpo e entravam em meu chupe. Dedos que invadiam, penetravam, manejavam meu rosto molhado de banheira e saliva e ríamos, gozávamos de tudo porque se gozava de rir.

E o abraço gostoso e apertado, abraço de reencontro de quem nunca tinha se conhecido, reconciliação de quem nunca tinha rompido e descoberta de quem já se conhecia desde que tinha nascido. Pelas 16 e 17 horas, na parte calma da tarde, o por do sol entrou pelo vitral do basculante e deixou tudo mais róseo do que já era e Deus viu que aquilo era bom. Se existia felicidade, era aquilo.

E pensar em todos aqueles tormentos, quando eu dormi no carro na porta da sua casa porque você não me deixou entrar, e só faltou chover pra deixar tudo mais melodramático. Essa é a nossa história: ruas e banheiros.



(caeu)

Jasão

(inspirado na peça "Gota D'água" de Chico Buarque)

eu dei de tudo a Jasão
e Jasão?
deu não

amor, família
ambição
e Jasão?

me deu um dia.

o que eu faço com um dia?
nada
ou tudo?

em um dia a maré vai e volta e eu vou e volto da feira
em um dia deus fez o mundo, aliás fez em sete,
mas demorou porque era homem
em um dia tua mãe te pariu e na madrugada do mesmo dia
enterrou o cadáver pequenino do teu irmão
em um ano os homens erguem a vila e em um dia a chuva desmorona tudo
em uma vida os homens constroem e em uma noite, bebem
em uma semana o sangue estanca e em um dia
hemorragia
um dia

quando me deu um dia você se traiu, Jasão, você não passa de um imbecil
porque hoje me deu muito mais do que devia.


por caeu

quinta-feira, 30 de maio de 2013

o amor que vem vindo



espero que venha um ano bom
com panos novos e novos sons
e que venha com um caso de amor
bem bobo, bem leve
pode até ser breve
pode ter bigode?
ah, pode...
mas que seja limpinho e depravado
que do resto eu cuido
deixa que eu cuido
e ele não sai mais do meu lado
o que ele me traz?
intensidade e nada mais
confiança a gente cria
o corpo, cultiva
porque feliz, só ele me faz
será que ele é capaz?


por caeu e zuzu




Hunky Pepita



Hunky Pepita era vedete
De qualidades extra femininas
Tinha maxilar e curvas firmes
E a juba de uma leoa
A mais linda sob luz vermelha
Do cabaré, o batom mais brilhante
O cabelo mais louro e roupas cintilantes
Coletes de oncinha; ouro nas orelhas
Olhos perversos de camaleoa
A preferida dos velhos tristes
A mais invejada entre as putas meninas
Que almejavam vendeta.

Um dia sofreu um golpe
Como ocorre com todos os grandes
Sua cara ao chão, junto às calças
A máscara rolou por seu rosto
Falsa como o rubi em seu peito
Algo a mais balançava entre as pernas
As putas rebelaram
Os velhos em protesto
A enxotaram sem pena do recinto
Com a paz de um Gandhi
Foi parar nos becos, no lixo
Sem calor e sem abrigo


Como companheiro, um gato preto
Que rondava nas marquises
O único a sentir sua falta
Foi Augusto, o garçom
Que todos os dias lhe mandava
Um cigarro e um batom
Em resposta, Pepita se esfregava
E impregnava seu cheiro no gato
Este ia faceiro ao cabaré
Para que Augusto lhe sentisse perto
A besta do gato, porém
Tropeçava e se lambuzava no lixo
Mas mesmo nojento de chorume
O garçom lhe fungava com gosto

Uma história de amor escatológica, que nem aos perturbados agradaria vivê-la, mas ainda assim, uma história de amor...


por Caeu

Cruzas

"A vida social é uma obra de ficção..."

De pouco vale ser um rei decapitado
De pouco vale ter um grande reino vencido
Vale muito a pena sonhar bem alto
Não vale morrer sem ter acontecido

Da minha memória
Três quartos são sonhos iluminados
Em noites nubladas
E que se vão na alvorada

E canto à plena voz
Não há escudo ou disfarce
Que esconda que em cada parte
Há um pouco de todos nós

Ou será que a humanidade
Da nascente até a foz
Escondeu sob os lençóis
Qualquer resquício da verdade?


por caeu

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Amor nos Tempos de Venvanse


Era a vida desgastada, era alívio tardio. Era pano que não rasgava e por menor falta que fizesse, era América sem Brasil.
O gosto salgado da boca me alimentava e eu, ousada, me negava. Era aperto de mão suave e beijo delinquente, desse, esperava.
Era mais um ser humano em frente à TV e menos um pra rir do mundo. Em poucos casos era desgosto disfarçado de dama, olhar vagabundo. "O tato que guardo para mim, entre quatro paredes, o que acontece lá fora?"
Como determinei em Vírus:

Me tornei cada vez mais dependente do estresse
Triste por que minha juventude a cada dia envelhece
Mais mal do que a gripe do momento
Mais down que a síndrome
Mais usada que o cachorro
Que os soviéticos usaram pra jogar no espaço
Minha paciência testada como um rato
Rodando, rodando, rodando...


Aos que participaram da minha solidão e que junto a mim choraram horas por algo que sozinho não se alcance. Por raiva, dor, medo, angústia, amizade, anemia e todo esse lance de amor. Amor nos tempos de venvanse. 


ZUZU PAILLAC


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Lábios de Julho

(Poderia ser algo grande, mas eu sou pequenininha e você não sabia disso)

Inclina-se para beijar e devolve
Houve até o incentivo na tela
E no momento oportuno somos tolos e jovens
E recuou

Busca palavras no escuro e chama
Atrai tanto e nem sabe
   que somos lindos e não nos conhecemos
De novo o fez

Na beira do encontro observa, "ela não impõe mais nada,
  ela não é mais minha."
E foi embora.


ZUZU PAILLAC