Querida era louca. Era mulher de
muitos casos, lábios de muitos namorados e salto alto quebrado. Era menina das
roupas rasgadas, das paredes arranhadas. Seu rímel era natural, e nem ouse
falar de seus dons: eram surreais demais para acreditar em sutil sensualidade.
Rasgou a pele ainda jovem, que mal havia nisso? Não sabia como se portar e
nunca buscou mudanças. Ela agia, simplesmente. De que adianta viver socialmente
23 horas por dia e não ser completamente selvagem pelo menos na última? Instintos
que vivem dentro de todos, e nela, oh deuses, estavam vivinhos da Silva.
Ninfomaníaca, era Querida.
Há quem acredite. Eu lhes contei
ficção pois Querida nunca saiu da própria cabeça. Então Ela ficou por ali tão
presa, naquela maluquice constante de bicho. Quando um corpo lacrado por conclusões
vizinhas bem como uma psique vazia e ameaçada, e não aparecem os distúrbios da
sacanagem, daí Ela geme no silêncio da companhia. Mas “amor”, amor para
Querida, devia valer mais quando há ternura e proteção.
A questão era que quando eles se
aproximavam Ela se recolhia, era algo que iria mas não ia, e se não ia, como é
que iria ser? Essa tola consciente de sua vida decente. Em sua própria
análise tinha razão de prantear. Quem é mais besta enamorada que Querida? E
quem recebe flores de plástico nem em outra vida, senão a melancólica e
lúgubre, esta mesma, a imbecil. Se, em qualquer caso, perceba, ninguém é mais
descartável que Querida.
Mas antes que investisse em
suicídio negou que a vida era a pior das oportunidades e que quanto mais
desconhecida sua escolha, mais covarde Ela sofria. Que por sorte não conheceu
a favela capitalista. Ela entendia isso. Resolveu renascer não porque era capaz
mas por brincar de acreditar que conseguiria mais uma vez. Nisso que Ela não
aguentava mais esperar mas assim mesmo haveria de, chorou mais e mais. E vai
fazer algum mal aguardar até o dezembro natalino? Vai lhe machucar sim, assim
como todos esses anos a machucaram. Assim como toda essa espera só feriu seu
coração. Assim como, agora, Ela perde todas as esperanças. E volta a se
perguntar: “que mal faria, se só uma vez em uma vida de merda e constante dor,
eu apagasse? Ah, sei la, não existir mais”. Porque, de verdade, alguém ainda
iria olhar para a cadeira vazia e notar que ali morria, lentamente, uma virgem?
ZUZU PAILLAC
ZUZU PAILLAC