sábado, 26 de janeiro de 2013

Confusão



Confusão

Acabou o almoço (sardinha com feijão e batata), acendeu um cigarro e começou:
- Eu mesma tinha onze ou dôuze taças de cristal, enormes, todas trabalhadas, que o Alecsânder me falou ''Menina, larga de ser boba! Não digo que 110 ou 120, mas uns noventa tu consegue nessas taças!''. Mas eu preciso terminar a coleção de selos do Última Hora que com mais 19,90 você ganha uma taça igual as que eu tenho.
 Porque num Natal que teve uma visita me fez o favor de quebrar uma das taças, veio com o braço assim e jogou direto no chão. Me falaram ''Ah, quebrou não'', mas a gente sente quando é vidro e quando é cristal quebrando. O Alecsânder que ganhou de um senhor, dono de uma loja nos Bandeirantes, um catálogo desses de loja mesmo, da Pêner Brasil, cheio de aparelhos novos, coisas diferentes. que o menino ficou encantado. Coisa de Nova Iorque, Londres, Canadá, só coisa fina, aí inventou de me acordar 7 e meia da manhã no domingo pra ir na tal loja ver os aparelhos. Não tinha um tostão de nada que comprasse porcaria nenhuma, o menino fechou a cara e eu que sou vó e não tenho coração de pedra, tive que fazer alguma coisa, você não concorda?
Peguei o garoto, juntei tudo e levei no Centro, na feira que tem essas iguarias de máquinas e tudo velho que você acha. E ficou feliz.


Por S. Mayflower



Tempos (Modernos?)

  Em 2012 as pessoas ainda viviam no formato de tempo-relógio, onde as horas vão apenas do 1 ao 12 e voltam sempre pro mesmo lugar.
 Depois, começou a se contar o tempo em torres, aonde cada indivíduo não está localizado dentro de apenas um período de tempo (entre o seu nascimento e a morte), mas sim dentro de todos os espaços de tempo que já existiram e os que ainda existirão.
 Nesse caso, não há passagem de tempo em si, os anos mais antigos se localizam na base da torre e os futuros no topo. O tempo é o espaço.
 Não há privilégio quanto a posição; Quando os mais novos precisam de algo, os mais velhos mandam pra cima os ensinamentos. Quando os antigos precisam se modernizar, os mais novos mandam pra baixo mandam presentes para o passado. Por isso existem tantas pessoas a frente do seu tempo.




Por Nemo Jonez





Pop Art



Aconteceu num bar no 26º andar de um arranha-céu:

- Eu não precisava ter vindo.
- Mas veio.
- Eu não tive escolha, tive?
- Teve.
- Não seja um cretino agora. Vim aqui para ajudar um irmão.
- Agora eu sou seu irmão? Não sabia que incesto era um fetiche seu.

(Ela o dá uma bofetada)

- Seus brincos tremeram quando você me bateu.
- Não toca em mim.
- Você está tremendo...
- Eu vou embora.
- Você sabe que eu não blefei... Eu só queria me despedir de você.
- Eu não devia ter vindo!

Meio hesitante ela foi embora. Nada hesitante, ele engoliu o gelo do uísque, vislumbrou a vista dos arranha-céus, viu os carros pequeninos lá embaixo e se tacou (não para morrer, ainda que o pulo o matasse). A banda, como no Titanic, tocou um jazz triste.

Obs. I: O relato dela:

''Você deve pensar que podia ter acontecido com qualquer um. Pessoas se tacam de prédios o tempo todo, oras. Eu mesma saio correndo de bares e restaurantes o tempo todo. Acontece, o amor acaba e os cafajestes cedo ou tarde caem em si. Mas não esse, meus caros, eu falo sério. Esse não tinha salvação, era um italiano do tipo mafioso. Meu drama, minha compaixão, meu desespero foram ensaiados. Até o luto foi fingido. Eu queria que ele pulasse, eu o queria morto. Só não sei o por quê.''






Por Nemo Jonez




Gosto



Ziza, Zizinha ou Zuzu,
Gosto muito de tu.

Gosto do teu cheiro de verdade
de feromônio e perfume
Gosto da tua boca macia
que cabe direitinho na minha
Gosto do teu cabelo cheio
menos quando ele cai no nosso beijo
Gosto dos teus olhos
mesmo fechados, dúbios
A dor é boa ou o prazer é ruim?

Gosto que teus seios tem a medida da minha mão
e também da boca
Gosto de lamber os bicos levemente
até que se enrijeçam
Gosto das tuas costelas
da tua barriga e dos teus quadris
E principalmente o cheiro
que já exala lá pelo umbigo
E está impregnado na minha memória
O gosto ácido como uma laranja
E uma textura como nenhuma outra
uma carne única.

Gosto das tuas coxas,
por dentro e por fora.
Gosto da maciez de tuas pernas
e até do espetar dos pelos que nascem
Gosto de te beijar do pescoço aos pés.
E roçar nas tuas nádegas
(provocar é bom).


Gosto de fazer por horas o que fariam em minutos.
Gosto de tu,
Zuzu.




S. Mayflower

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A Primeira Dose de Luar


                Caldeirão negro. Palavras estranhas. Música para os ouvidos da mulher, se tornava uma perfeita sinfonia na medida em que choravam os pássaros engaiolados que antes alegravam as manhãs. Mas em ambiente sombrio sempre tem uma dose de inocência, esta aqui, jovem Aprendiz. Ajudante da mais maléfica, insuportável, sofrida, incompreendida e, portanto, amável Bruxa.  
                - Ora, só me falta um ingrediente –Bruxa examinava atentamente a receita que preparava –mas que coisa, que será esse elemento? Olhe aqui, Aprendiz.
                Apontou para as instruções de um velho livro empoeirado, enquanto Aprendiz ia lendo a página inteira, pois com os dedos tortos e velhos da senhora, que certeza tinha do canto que apontava? “Poção do Poder”, era o título. E, conforme iam sendo citados o modo de preparo e ingredientes, os olhos da jovem chegaram na última instrução: “Pegarás a essência do sentimento mais poderoso do mundo e adicionarás à receita. E terás certeza de que ele é o maior aprisionamento humano, o mais sofrido e misterioso; porém o mais esperado, e portanto, tão maravilhoso”. Ao se virar para a direção da Bruxa, intrigou-se com o olhos abertos e o sorriso irônico, mesmo que sempre presentes naquele rosto.
                - Queres ser a perfeita Bruxa um dia? –a senhora de roupas negras e cabelos inversamente brancos perguntou, animada, com um tom sábio e desafiador–Pois então aqui está tua missão. Essa poção tornará mais poderosa minha prática mágica, e um dia herdarás meus grandes poderes. Mas não sou mais dessas que podem ser livres para conseguir sentimentos, nem conheço todos senão quando ouço falar. E tu, já que és jovem, bonita, curiosa e estudante de minha magia, vais conseguir a essência desse tal sentimento; o mais poderoso sentimento humano. –Entregou-lhe um frasco com desenhos de rostos desfigurados nas tampas, e Aprendiz saiu da casa, em sua jornada.
                O tempo passou como há de passar naturalmente. Era fim de tarde, a hora perfeita para atrair todas as energias mórbidas que rodeavam a pequena casa das duas gerações de mulheres. Bruxa aguardava, ansiosa, o retorno da aluna. A porta se abriu, e ambas cumprimentaram-se, na verdade pouco interessadas no abraço. Mal a menina chegou e a instrutora foi logo perguntando: “Afinal, conseguistes o tal sentimento? Vai me tornar poderosa?”.
                - Respeitosa Bruxa, minha querida professora, pois bem, eu consegui! Descobri de um jeito tão rápido, de uma forma tão intensa...
                - Pois então me dê o frasco! –e tomou-lhe da mão, colocando todos os elementos iniciais da poção, misturando-os, falando palavras em outra língua. Raios começavam a cair perto da casa. Aprendiz sentia o poder passar por si e o via se apossar do corpo de Bruxa. Esta última sorria, ora maleficamente, ora com um sorriso incontrolável, pois nada era mais forte do que a magia em seu corpo. Aprendiz colocou no caldeirão o toque final: o sentimento que conseguira capturar. O vento vinha pela janela e derrubava tudo em sua frente, daí derrubou papéis velhos móveis velhos até almas velhas. A decoração se desfez porque tudo voava tudo caía tudo assoprava, o chão tremeu chegando a assustar enquanto as árvores cantavam com seus galhos batiam uns nos outros bateu no bichano que se escondeu, a casa inteira ficou com um cheiro esquisito...
 Bruxa caiu! Como se por segundos tivesse flutuado uma mísera distância do chão. Com a ajuda da jovem moça ela recuperou o equilíbrio. De pé, sem dizer uma única palavra, mas com uma força nunca sentida antes. Olhou-se no espelho, quase quebrado pela movimentação do feitiço: estava menos pálida, mais alta, com os cabelos menos envelhecidos. Por dentro, também, sua alma ardia de felicidade.
                - Nem acredito que funcionou! –comemorava, sem tirar os olhos do espelho por segundos, quando finalmente, se dirigiu a Aprendiz –me diga querida, deves ter lutado tanto com os outros para conseguir o que conseguistes... Minhas pernas bambas me dizem que o amor, a estúpida e bela paixão, tornou possível realizar tamanha ousadia. Meus braços, porém, potentes e musculosos, me fazem pensar na sensação do homicídio, na vontade enlouquecida de extravasar seu ódio por alguém. Minha pele despedida de rugas discorda, e como ela, acredito que esses minutos de transformação são frutos da vitória, da conquista de algo importante, a ambição de ter conseguido ser a melhor em algo. Até meus cabelos tem opiniões, chegam a afirmar que conseguistes humilhar alguém. Ou seria só a gentileza, ou orgulho, foi o perdão?
                Aprendiz parou ao lado de Bruxa e olhou para o espelho, onde encontrava o reflexo das duas. Parecia apenas feliz.
                - Permita-me dizer, que nem toda essa magia pode superar o que eu achei e vivi. Na verdade não sei se posso comparar minha transformação com a tua, minha metamorfose emocional com tua nova juventude, nem meu detalhe físico com sua nova beleza. Enfim eu achei o que tanto procurava, que te fez enérgica. Se eu pudesse senti-lo todo dia... Descobri que momentos como aquele são raros, e vicia. És feita de orgasmo virgem.



ZUZU PAILLAC


A Curva Bonita


(Uma delicada moça olha pra cima e diz)
- Beija-me gula!
Me tenha amada em braços viris, me põe de leve no colo vazio, em particular me desvia dos tolos.
Se em algum momento não há quem prove de mim, se já não se fabricam mais pérolas, não me perca de vista. –
Aos dias foi ficando mas tão prosa mas tão cheia de si que finalmente se desarmou. Ficou sólida demais. Mas ficou tão bonita...


ZUZU PAILLAC