terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A Primeira Dose de Luar


                Caldeirão negro. Palavras estranhas. Música para os ouvidos da mulher, se tornava uma perfeita sinfonia na medida em que choravam os pássaros engaiolados que antes alegravam as manhãs. Mas em ambiente sombrio sempre tem uma dose de inocência, esta aqui, jovem Aprendiz. Ajudante da mais maléfica, insuportável, sofrida, incompreendida e, portanto, amável Bruxa.  
                - Ora, só me falta um ingrediente –Bruxa examinava atentamente a receita que preparava –mas que coisa, que será esse elemento? Olhe aqui, Aprendiz.
                Apontou para as instruções de um velho livro empoeirado, enquanto Aprendiz ia lendo a página inteira, pois com os dedos tortos e velhos da senhora, que certeza tinha do canto que apontava? “Poção do Poder”, era o título. E, conforme iam sendo citados o modo de preparo e ingredientes, os olhos da jovem chegaram na última instrução: “Pegarás a essência do sentimento mais poderoso do mundo e adicionarás à receita. E terás certeza de que ele é o maior aprisionamento humano, o mais sofrido e misterioso; porém o mais esperado, e portanto, tão maravilhoso”. Ao se virar para a direção da Bruxa, intrigou-se com o olhos abertos e o sorriso irônico, mesmo que sempre presentes naquele rosto.
                - Queres ser a perfeita Bruxa um dia? –a senhora de roupas negras e cabelos inversamente brancos perguntou, animada, com um tom sábio e desafiador–Pois então aqui está tua missão. Essa poção tornará mais poderosa minha prática mágica, e um dia herdarás meus grandes poderes. Mas não sou mais dessas que podem ser livres para conseguir sentimentos, nem conheço todos senão quando ouço falar. E tu, já que és jovem, bonita, curiosa e estudante de minha magia, vais conseguir a essência desse tal sentimento; o mais poderoso sentimento humano. –Entregou-lhe um frasco com desenhos de rostos desfigurados nas tampas, e Aprendiz saiu da casa, em sua jornada.
                O tempo passou como há de passar naturalmente. Era fim de tarde, a hora perfeita para atrair todas as energias mórbidas que rodeavam a pequena casa das duas gerações de mulheres. Bruxa aguardava, ansiosa, o retorno da aluna. A porta se abriu, e ambas cumprimentaram-se, na verdade pouco interessadas no abraço. Mal a menina chegou e a instrutora foi logo perguntando: “Afinal, conseguistes o tal sentimento? Vai me tornar poderosa?”.
                - Respeitosa Bruxa, minha querida professora, pois bem, eu consegui! Descobri de um jeito tão rápido, de uma forma tão intensa...
                - Pois então me dê o frasco! –e tomou-lhe da mão, colocando todos os elementos iniciais da poção, misturando-os, falando palavras em outra língua. Raios começavam a cair perto da casa. Aprendiz sentia o poder passar por si e o via se apossar do corpo de Bruxa. Esta última sorria, ora maleficamente, ora com um sorriso incontrolável, pois nada era mais forte do que a magia em seu corpo. Aprendiz colocou no caldeirão o toque final: o sentimento que conseguira capturar. O vento vinha pela janela e derrubava tudo em sua frente, daí derrubou papéis velhos móveis velhos até almas velhas. A decoração se desfez porque tudo voava tudo caía tudo assoprava, o chão tremeu chegando a assustar enquanto as árvores cantavam com seus galhos batiam uns nos outros bateu no bichano que se escondeu, a casa inteira ficou com um cheiro esquisito...
 Bruxa caiu! Como se por segundos tivesse flutuado uma mísera distância do chão. Com a ajuda da jovem moça ela recuperou o equilíbrio. De pé, sem dizer uma única palavra, mas com uma força nunca sentida antes. Olhou-se no espelho, quase quebrado pela movimentação do feitiço: estava menos pálida, mais alta, com os cabelos menos envelhecidos. Por dentro, também, sua alma ardia de felicidade.
                - Nem acredito que funcionou! –comemorava, sem tirar os olhos do espelho por segundos, quando finalmente, se dirigiu a Aprendiz –me diga querida, deves ter lutado tanto com os outros para conseguir o que conseguistes... Minhas pernas bambas me dizem que o amor, a estúpida e bela paixão, tornou possível realizar tamanha ousadia. Meus braços, porém, potentes e musculosos, me fazem pensar na sensação do homicídio, na vontade enlouquecida de extravasar seu ódio por alguém. Minha pele despedida de rugas discorda, e como ela, acredito que esses minutos de transformação são frutos da vitória, da conquista de algo importante, a ambição de ter conseguido ser a melhor em algo. Até meus cabelos tem opiniões, chegam a afirmar que conseguistes humilhar alguém. Ou seria só a gentileza, ou orgulho, foi o perdão?
                Aprendiz parou ao lado de Bruxa e olhou para o espelho, onde encontrava o reflexo das duas. Parecia apenas feliz.
                - Permita-me dizer, que nem toda essa magia pode superar o que eu achei e vivi. Na verdade não sei se posso comparar minha transformação com a tua, minha metamorfose emocional com tua nova juventude, nem meu detalhe físico com sua nova beleza. Enfim eu achei o que tanto procurava, que te fez enérgica. Se eu pudesse senti-lo todo dia... Descobri que momentos como aquele são raros, e vicia. És feita de orgasmo virgem.



ZUZU PAILLAC


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