segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Carro


''Dentro da noite veloz...''


 Um carro corre veloz na minha rua, às 4 da manhã de uma segunda fria e chuvosa. Justo na minha rua, tão calma e vaga. Vraummmmmm (é o som que o carro faz). Começa baixo como um aviso, depois cresce, torna-se intenso e some rápido, mas vibra. Vraummmm, vraummmm, vraummmm, o barulho do carro gira na minha cabeça. O carro acelera meu coração. Um carro corre em mim na madrugada.
 Dormi, acho que desmaiei por tantas horas que não estava mais em mim, vi o que comumente não vejo pois estou dormindo. Acho que levei a vida toda pra acordar na hora que todos dormem e ouvir um carro passando na minha rua. Me senti estranho, desnorteado. Há tanto eco no meu silêncio e no descanso de todos que o carro é quase um abuso. Não que ele se importe, correndo sozinho na madrugada. Mas ele não estava mais sozinho, eu o ouvi, eu acompanhei sua trajetória efêmera ao passar na minha rua!
 Éramos como os dois únicos sobreviventes de um apocalipse Morfeu. Eu só o tenho, eu só o contemplo. Será que ele me contempla? Percebo que a minha janela está apagada. Se estivesse acesa, será que ele me notaria? Ou me acharia um intruso na sua longa jornada noite adentro? Foi bom que estivesse apagada, ainda que eu não me destacasse e que ele parta achando que está sozinho. Mas se todas estivessem acesas e apenas a minha apagada, será que ele me notaria?



(S. Mayflower)



Um comentário:

  1. Excelente! Um conto... O conto é diferenciado da crônica pelo tom. E ao ler este texto, confesso que senti o tom... :)

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