segunda-feira, 29 de outubro de 2012
On The Road
Pararam duas caminhonetes no posto de gasolina, desceram dois barbudos de couro e jeans. Seguiram quase juntos na loja de conveniências, as caixas suspiraram fundo. Abriram uma cerveja, papo vai, papo foi, beberam e riram no meio fio até anoitecer. Com os olhos cruzando e tontos, cambalearam se segurando pela cintura até o banheiro onde fizeram um sexo bêbado, sujo, suado e soturno, e infernalmente divertido.
Acordou um com a luz do sol entrando pelo basculante e uma garrafa de uísque vazia na mão. O cabeludo afastou a bunda do peludo da sua cara e foi zonzo até aonde tinham estacionado quando encontrou as vagas vazias. Bateu a cabeça na parede tentando se lembrar como os carros foram roubados, sem se lembrar do auge da porra-louquice quando tiraram as calças e jogaram as chaves pela janelinha. Os dois frentistas franzinos, ao verem voar as chaves do banheiro no meio da noite, decidiram tirar os uniformes e fugir naquele instante, para viverem seu amor longe dali.
Os dois andaram, correram, engordaram e deixaram o cabelo e a barba crescer. Num posto de gasolina, 3 estados depois, duas caminhonetes bem deterioradas, sujas de lama até o teto entraram chiando para que a história desse seu rumo. Nus em pelo.
Raquel
Raquel, malandra como o gato félix...
A estrela exigiu 200 toalhas brancas para o camarim do seu show. A feirante Raquel exigiu de si mesma que vendesse no mínimo 200 toalhas de banho, de rosto, rendadas, calcinhas e qualquer coisa de pano naquela semana para que conseguisse um ingresso de camarote.
Ninguém mais da feira ia. Suou muito pra conseguir ficar no varandão, admirando superior o show, quando viu na pista, bem embaixo dela outra feirante bem acompanhada. Já tinha tomado algumas e o ódio lhe subiu na cabeça, sendo que a primeira coisa pesada que alcançou foi uma lixeira de metal, que mirou lá de cima na cabeça da Raquel, que já estava nos braços do Adolfo.
A cabeça se quebrou como uma abóbora e o sangue formou uma poça de groselha. O Adolfo atônito. Generalizou a confusão, o show parou mas nem por isso a maluca fugiu, apenas se afastou da dispersão. Na gritaria, uma senhora indignada gritou: ''Que tipo de pessoa faria uma coisa dessas?'' a Assassina respondeu :''As loucas.''.
A polícia chegou e ela lá, satisfeita...
A estrela exigiu 200 toalhas brancas para o camarim do seu show. A feirante Raquel exigiu de si mesma que vendesse no mínimo 200 toalhas de banho, de rosto, rendadas, calcinhas e qualquer coisa de pano naquela semana para que conseguisse um ingresso de camarote.
Ninguém mais da feira ia. Suou muito pra conseguir ficar no varandão, admirando superior o show, quando viu na pista, bem embaixo dela outra feirante bem acompanhada. Já tinha tomado algumas e o ódio lhe subiu na cabeça, sendo que a primeira coisa pesada que alcançou foi uma lixeira de metal, que mirou lá de cima na cabeça da Raquel, que já estava nos braços do Adolfo.
A cabeça se quebrou como uma abóbora e o sangue formou uma poça de groselha. O Adolfo atônito. Generalizou a confusão, o show parou mas nem por isso a maluca fugiu, apenas se afastou da dispersão. Na gritaria, uma senhora indignada gritou: ''Que tipo de pessoa faria uma coisa dessas?'' a Assassina respondeu :''As loucas.''.
A polícia chegou e ela lá, satisfeita...
sábado, 27 de outubro de 2012
Sem Título I de Zuzu
Meus pais migraram para o sul
A solidão invadiu a sala
Bom dia, Brasil
Saímos de casa pra nos encontrar,
pelos passos jovens que sonhamos
O futuro é água
Mas deixei a chave e fui com fé
Apoiado em sapatos velhos e ideias da moda
Onde está minha mulher?
Numa estrada de bolas de cristal,
que encontro justo o quê, sua traição em pleno varal
Um urubu me seguiu
Cheguei onde nenhum homem chegou
Mesmo às vezes que eu –e continuo- duvido muito do Senhor
Meu verso dói
Da manga da cidade eu vejo mágoa
Todo o sorriso bate e volta, me despenteia
Quando fica nua a tua rua
esnoba e magoa, lanchando com Deus
Entre paredes sou mais bonito
Ninguém nunca mais amou covardes como eu
Se digo que não sei te amar, sem ter amado
Se é a cidade inferno eu sou adeus
''Diálogos''
Foram bons risos e olhares
Foram bons códigos e dedos entrelaçados
Foram banheiros e escadas
E dores e arrepios
Foi irmandade, foi charme
Foi cumplicidade
Foi ver da janela de um jeito diferente
Foi sua mãe e seus cães
Almofadas rasgadas
Foram lambidas -suas e do seu cachorro-
Foi o cigarro que você enrolou com cuidado
Só pra se exibir
Foi a cueca samba canção e o jogo de futebol
Foi a caneca de cerveja e o espaço no meio fio
Os óculos
Além disso-
Voz rouca que eu fiz
E correr pra pegar calças jogadas
A carteira de marlboro red que ficou na sua cabeceira
E a sua mãe encrencou
Mas principalmente o calor
O peito quente
As pernas quentes
Carnes quentes
Foi a morenice e seu irmão
A nudez pornô-chanchada
Que seu cachorro observava
E o despertador tocou
São seis e meia
Ainda posso pegar o metrô
-Você dorme.
O outro me largou.
É uma pena e sempre foi
Que eu não seja ótimo e não saiba
Que ria, disfarce e saia
E que fique sempre assim
Entretanto eu não sei a saudade
Que foi de charmes
E favores
E olhares
Boulevard
Uma garota estagnada, pobre garota rica, escrevendo, tentando escrever uma história pra se satisfazer, sem conseguir, no seu quarto à noite, chove, troveja, ela está completamente sozinha com seus demônios, personificados em bonecos de pelúcia que mantém, ela não sabia de nada, do que havia além da sua porta, ela não sabia de nada e tinha medo de saber, de romper a parede e tudo desabar. Da janela ela via no fim da rua pois era como um diamante gigante: Boulevard. E imaginava como os jovens se divertiam e eram livres e ela tão presa em si mesma, porque não tinha a aprovação do espelho, da mãe, de vozes que a diziam 'não' e como num pesadelo a voz lhe faltava e a impedia de gritar de volta. O tremor lhe paralisava as pernas, mas devia ser bom, ela pensava, ser livre sem se importar, ser perfeito por ser imperfeito, mas não era. E ela chorou, trovejou, deitou sozinha e chorou, cheia de si mesma, cheia de tudo, presa em seu medo.
-
Em Boulevard, porém, a energia sexual se transmitia de uma forma ainda muito tensionada, quase por susto. Em um corpo solitário em meio ao grupo se debatia o ímpeto de procurar por algo mais, ou algo certo. E do terraço observava as milhares de janelinhas que se acendiam e apagavam, que eram vidas que se acendiam e apagavam. Apesar da promiscuidade fresca, boba, e pequenas drogas e becos escuros que se tornam cada vez menos assustadores, um garoto, largado na classe média o quão urbana se pode ser, em tanto cinza e preto resgatava o romance, e era bom. Ele, que rompera com casa, paredes e limites, pois queria estar em todas as casas e não estar em nenhuma, sentiu vontade de estar entre quatro paredes, domesticado, em dominação mútua com o ambiente, sem desafio. Não sabia o que isso se chamava, mas era bom, finalmente. Olhando as milhares de janelinhas a serem suas, indagou: ''Mas será que o amor da nossa vida está no lugar em que queríamos estar?''
Amor Marginal
'''Se o sorriso passar e o desejo passar como uma sede que passa: deixar passar ou passar a frente do passar que há no desesperar do vento soprar lá e tirar o que já há e que há de haverá? Será que há? Sei lá.'' S. Mayflower
Por algum modo e razão que não sei bem explicar, minha família acabou conseguindo comprar o apartamento que fora de minha avó e onde eu havia vivido quando criança. Havia um desejo contido em mim que me atraía a aquele apartamento, lembrava do seu longo corredor escuro com paredes infiltradas e como eu tinha medo. Acho que eu tenho saudades da inocência ou do aquário da minha avó. Só não lembro por qual motivo, precisei hospedar um bon vivant, intelectual drogado, que na tal noite preparou e tomou em doses exageradas uma tal sopa de feijões alucinógenos, ou algo assim, e estava se embalando na suite, nu, peludo e barrigudo. Fui vê-lo e ouvi o barulho de chaves girando do outro lado do apartamento, como num pressentimento, e vendo o estado de meu companheiro, julguei que deveria correr e me trancar no banheiro, senão a culpa de sua overdose cairia sobre mim. Do banheiro de decoração motelística eu ouvia a confusão e os reflexos bêbados do meu hóspede (e que hóspede), e refleti: eu o amava, porém, me escondia. Eu o queria bem, mas não queria que a sua felicidade fosse de minha responsabilidade. Mas ainda sim, esperava pelo seu melhor. Era um amor marginal, pensei, toda vez que ele fala baixinho no meu ouvido coisas que eu não entendo.
Por algum modo e razão que não sei bem explicar, minha família acabou conseguindo comprar o apartamento que fora de minha avó e onde eu havia vivido quando criança. Havia um desejo contido em mim que me atraía a aquele apartamento, lembrava do seu longo corredor escuro com paredes infiltradas e como eu tinha medo. Acho que eu tenho saudades da inocência ou do aquário da minha avó. Só não lembro por qual motivo, precisei hospedar um bon vivant, intelectual drogado, que na tal noite preparou e tomou em doses exageradas uma tal sopa de feijões alucinógenos, ou algo assim, e estava se embalando na suite, nu, peludo e barrigudo. Fui vê-lo e ouvi o barulho de chaves girando do outro lado do apartamento, como num pressentimento, e vendo o estado de meu companheiro, julguei que deveria correr e me trancar no banheiro, senão a culpa de sua overdose cairia sobre mim. Do banheiro de decoração motelística eu ouvia a confusão e os reflexos bêbados do meu hóspede (e que hóspede), e refleti: eu o amava, porém, me escondia. Eu o queria bem, mas não queria que a sua felicidade fosse de minha responsabilidade. Mas ainda sim, esperava pelo seu melhor. Era um amor marginal, pensei, toda vez que ele fala baixinho no meu ouvido coisas que eu não entendo.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
La Femme de Chambre
de S. Mayflower
Um dia, alguém que não se viu passou por debaixo da porta de todos os quartos do hotel um envelope rosa. La Femme de Chambre, que Deus a tenha, ia limpar os quartos quando viu os bilhetes e se intrigou, por que o remetente vinha da França? O pior tinha acontecido. Teve que ir de quarto em quarto, temerosa, buscando os envelopes que enfiou um a um no seu avental , antes que alguém os lesse. Correu até estar a salvo na lavanderia, onde rasgou os bilhetes e os jogou junto com a roupa suja na máquina de lavar. Pôde suspirar aliviada por algumas semanas, segura de que ninguém havia visto os envelopes, até que um dia a chamaram na gerência. A reclamação não era sobre bilhete algum, mas sim porque ela andava relapsa demais. Acentuaram que ela era a camareira modelo, a funcionária mais antiga do hotel, a grande mãezona de todos. Ela sorriu mas não queria. Difícil era não se distrair com a angústia batendo forte como o vento da praia que morava quando era moça, e agora estava tão longe de tudo.
Mais tarde, nos seus aposentos, teve que confessar a si mesma: O acordeon do bar lhe fazia falta e a falta lhe azucrinava. Mesmo avó, ainda era a menina de olhos esbugalhados que tomava banho no Mediterrâneo. Mais que isso, ela havia rasgado os envelopes em pedaços bem grandes e os molhado (e não queimado ou triturado) porque tinha esperanças de que um dia fossem achados e mesmo com dificuldade, fossem lidos e eternizados. Porque os bilhetes eram cartões postais do acordeonista do bar, que os passou por debaixo das portas para deixar pública a história de amor que eles haviam tido e que ela tentava esconder, que em Nice ela não era tão formal como enquanto camareira, e que só tocava acordeon no bar para estar perto dela, mas desistira e partiria, em breve.
Ela não precisava de mais. Teve um homem que pulava três lances de escada e atravessava a aldeia sob a luz da lamparina só para abraçá-la por trás e fazer seus cabelos da nuca se arrepiarem e as madeixas voarem com o vento violento que vinha do mar. Não há, no mundo, razão alguma para que qualquer amor não exista. Mas paradoxal que ele é, também não há como ele existir como as outras coisas existem. Por essa força que não se explica nem controla, ela teve de fugir e correu louca pela aldeia, chegou no hotel e mudou o rumo da sua vida. Mesmo quando ele a seguiu, lutou por ela e sofreu em silêncio, ela o negou. Ainda era tão jovem e boba quanto quando escapara do amor e agora via ele escapar. Então ela, boba que era, morreu, mas deixou um amor inteirinho pra ser vivido.
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