sábado, 27 de outubro de 2012

Amor Marginal

'''Se o sorriso passar e o desejo passar como uma sede que passa: deixar passar ou passar a frente do passar que há no desesperar do vento soprar lá e tirar o que já há e que há de haverá? Será que há? Sei lá.'' S. Mayflower


Por algum modo e razão que não sei bem explicar, minha família acabou conseguindo comprar o apartamento que fora de minha avó e onde eu havia vivido quando criança. Havia um desejo contido em mim que me atraía a aquele apartamento, lembrava do seu longo corredor escuro com paredes infiltradas e como eu tinha medo. Acho que eu tenho saudades da inocência ou do aquário da minha avó. Só não lembro por qual motivo, precisei hospedar um bon vivant, intelectual drogado, que na tal noite preparou e tomou em doses exageradas uma tal sopa de feijões alucinógenos, ou algo assim, e estava se embalando na suite, nu, peludo e barrigudo. Fui vê-lo e ouvi o barulho de chaves girando do outro lado do apartamento, como num pressentimento, e vendo o estado de meu companheiro, julguei que deveria correr e me trancar no banheiro, senão a culpa de sua overdose cairia sobre mim. Do banheiro de decoração motelística eu ouvia a confusão e os reflexos bêbados do meu hóspede (e que hóspede), e refleti: eu o amava, porém, me escondia. Eu o queria bem, mas não queria que a sua felicidade fosse de minha responsabilidade. Mas ainda sim, esperava pelo seu melhor. Era um amor marginal, pensei, toda vez que ele fala baixinho no meu ouvido coisas que eu não entendo.

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