quinta-feira, 25 de outubro de 2012
La Femme de Chambre
de S. Mayflower
Um dia, alguém que não se viu passou por debaixo da porta de todos os quartos do hotel um envelope rosa. La Femme de Chambre, que Deus a tenha, ia limpar os quartos quando viu os bilhetes e se intrigou, por que o remetente vinha da França? O pior tinha acontecido. Teve que ir de quarto em quarto, temerosa, buscando os envelopes que enfiou um a um no seu avental , antes que alguém os lesse. Correu até estar a salvo na lavanderia, onde rasgou os bilhetes e os jogou junto com a roupa suja na máquina de lavar. Pôde suspirar aliviada por algumas semanas, segura de que ninguém havia visto os envelopes, até que um dia a chamaram na gerência. A reclamação não era sobre bilhete algum, mas sim porque ela andava relapsa demais. Acentuaram que ela era a camareira modelo, a funcionária mais antiga do hotel, a grande mãezona de todos. Ela sorriu mas não queria. Difícil era não se distrair com a angústia batendo forte como o vento da praia que morava quando era moça, e agora estava tão longe de tudo.
Mais tarde, nos seus aposentos, teve que confessar a si mesma: O acordeon do bar lhe fazia falta e a falta lhe azucrinava. Mesmo avó, ainda era a menina de olhos esbugalhados que tomava banho no Mediterrâneo. Mais que isso, ela havia rasgado os envelopes em pedaços bem grandes e os molhado (e não queimado ou triturado) porque tinha esperanças de que um dia fossem achados e mesmo com dificuldade, fossem lidos e eternizados. Porque os bilhetes eram cartões postais do acordeonista do bar, que os passou por debaixo das portas para deixar pública a história de amor que eles haviam tido e que ela tentava esconder, que em Nice ela não era tão formal como enquanto camareira, e que só tocava acordeon no bar para estar perto dela, mas desistira e partiria, em breve.
Ela não precisava de mais. Teve um homem que pulava três lances de escada e atravessava a aldeia sob a luz da lamparina só para abraçá-la por trás e fazer seus cabelos da nuca se arrepiarem e as madeixas voarem com o vento violento que vinha do mar. Não há, no mundo, razão alguma para que qualquer amor não exista. Mas paradoxal que ele é, também não há como ele existir como as outras coisas existem. Por essa força que não se explica nem controla, ela teve de fugir e correu louca pela aldeia, chegou no hotel e mudou o rumo da sua vida. Mesmo quando ele a seguiu, lutou por ela e sofreu em silêncio, ela o negou. Ainda era tão jovem e boba quanto quando escapara do amor e agora via ele escapar. Então ela, boba que era, morreu, mas deixou um amor inteirinho pra ser vivido.
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