sábado, 27 de outubro de 2012

Boulevard


Uma garota estagnada, pobre garota rica, escrevendo, tentando escrever uma história pra se satisfazer, sem conseguir, no seu quarto à noite, chove, troveja, ela está completamente sozinha com seus demônios, personificados em bonecos de pelúcia que mantém, ela não sabia de nada, do que havia além da sua porta, ela não sabia de nada e tinha medo de saber, de romper a parede e tudo desabar. Da janela ela via no fim da rua pois era como um diamante gigante: Boulevard. E imaginava como os jovens se divertiam e eram livres e ela tão presa em si mesma, porque não tinha a aprovação do espelho, da mãe, de vozes que a diziam 'não' e como num pesadelo a voz lhe faltava e a impedia de gritar de volta. O tremor lhe paralisava as pernas, mas devia ser bom, ela pensava, ser livre sem se importar, ser perfeito por ser imperfeito, mas não era. E ela chorou, trovejou, deitou sozinha e chorou, cheia de si mesma, cheia de tudo, presa em seu medo.

-


Em Boulevard, porém, a energia sexual se transmitia de uma forma ainda muito tensionada, quase por susto. Em um corpo solitário em meio ao grupo se debatia o ímpeto de procurar por algo mais, ou algo certo. E do terraço observava as milhares de janelinhas que se acendiam e apagavam, que eram vidas que se acendiam e apagavam. Apesar da promiscuidade fresca, boba, e pequenas drogas e becos escuros que se tornam cada vez menos assustadores, um garoto, largado na classe média o quão urbana se pode ser, em tanto cinza e preto resgatava o romance, e era bom. Ele, que rompera com casa, paredes e limites, pois queria estar em todas as casas e não estar em nenhuma, sentiu vontade de estar entre quatro paredes, domesticado, em dominação mútua com o ambiente, sem desafio. Não sabia o que isso se chamava, mas era bom, finalmente. Olhando as milhares de janelinhas a serem suas, indagou: ''Mas será que o amor da nossa vida está no lugar em que queríamos estar?''

Nenhum comentário:

Postar um comentário