sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Velha


de C. Falangi

Eu passava a maioria dos dias triste, esperando pela noite quando eu poderia ser a stripper mais suja e safada que o mundo já viu. Pessoas fumam maconha pra ter uma visão mais apurada do mundo: Estão erradas. A melhor forma de conhecer o mundo (e a si mesmo) é o silêncio. E conhecer a si mesmo por completo, no espelho ou no toque, incluindo o ânus. As pessoas tem medo dele, pelas imediatas relações escatológicas, mas ele é o que há de mais novo e moderno. Libertemos o cu! Quem já libertou sabe a vida de um jeito especial. Use lingerie, se afunde nela, não tenha medo de ter o cabelo que quiser. Tente rir de revistas de fofoca. Seja bonito não importa como. Ria do que der vontade. Fale só o que soar honesto. Minta sensualmente. Viva com charme.

Bananas Is My Business


marchinha de carnaval por Nemo Jonez

Nossos macacos guiam táxis
Nossa moeda é a barganha
Nada pra nós vem muito fácil
Nosso negócio é banana

Minha fortuna vale um centavo
Mesmo assim, isso não me encana
Qualquer dia eu entro nesse conchavo
Que meu negócio é banana

Brasil, Brasil
Você tomou seu ritrovil?
Você cruzou os braços
E as pernas abriu
Não falo de mau grado
Mas além de safado
Agora você é senil?

E eu não vou ficar
Com o bagaço da laranja
Vou me mobilizar
E se não der a gente arranja

Só não pode ficar
Como sempre foi
Cruza os braços
E deixa o resto pra depois

Desde que Cabral
Chegou dizendo ''Ora Pois''
Já comia caviar
E eu no feijão com arroz

No país do carnaval
Mata a cobra e esconde o pau
De ladrão de galinhas
Está cheio o Senado

Eles tem ovos de ouro
E a gente sem agrado
Melhor descontar a raiva
Batendo em mulher ou viado

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Querida


    Querida era louca. Era mulher de muitos casos, lábios de muitos namorados e salto alto quebrado. Era menina das roupas rasgadas, das paredes arranhadas. Seu rímel era natural, e nem ouse falar de seus dons: eram surreais demais para acreditar em sutil sensualidade. Rasgou a pele ainda jovem, que mal havia nisso? Não sabia como se portar e nunca buscou mudanças. Ela agia, simplesmente. De que adianta viver socialmente 23 horas por dia e não ser completamente selvagem pelo menos na última? Instintos que vivem dentro de todos, e nela, oh deuses, estavam vivinhos da Silva. Ninfomaníaca, era Querida.
Há quem acredite. Eu lhes contei ficção pois Querida nunca saiu da própria cabeça. Então Ela ficou por ali tão presa, naquela maluquice constante de bicho. Quando um corpo lacrado por conclusões vizinhas bem como uma psique vazia e ameaçada, e não aparecem os distúrbios da sacanagem, daí Ela geme no silêncio da companhia. Mas “amor”, amor para Querida, devia valer mais quando há ternura e proteção.
A questão era que quando eles se aproximavam Ela se recolhia, era algo que iria mas não ia, e se não ia, como é que iria ser? Essa tola consciente de sua vida decente. Em sua própria análise tinha razão de prantear. Quem é mais besta enamorada que Querida? E quem recebe flores de plástico nem em outra vida, senão a melancólica e lúgubre, esta mesma, a imbecil. Se, em qualquer caso, perceba, ninguém é mais descartável que Querida.
Mas antes que investisse em suicídio negou que a vida era a pior das oportunidades e que quanto mais desconhecida sua escolha, mais covarde Ela sofria. Que por sorte não conheceu a favela capitalista. Ela entendia isso. Resolveu renascer não porque era capaz mas por brincar de acreditar que conseguiria mais uma vez. Nisso que Ela não aguentava mais esperar mas assim mesmo haveria de, chorou mais e mais. E vai fazer algum mal aguardar até o dezembro natalino? Vai lhe machucar sim, assim como todos esses anos a machucaram. Assim como toda essa espera só feriu seu coração. Assim como, agora, Ela perde todas as esperanças. E volta a se perguntar: “que mal faria, se só uma vez em uma vida de merda e constante dor, eu apagasse? Ah, sei la, não existir mais”. Porque, de verdade, alguém ainda iria olhar para a cadeira vazia e notar que ali morria, lentamente, uma virgem?


ZUZU PAILLAC


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Desamor



E daí que haja amor
Se eu não rir feito criança
Se ao meu redor ainda houver
Qualquer resquício de existência
Estou muito aquém do que posso
Porque não sinto o que vivo
E se eu fujo com esperança
No meio de tanta fumaça
É que eu amo meus fantasmas
E tenho medo de aliança

De que me importa o amor
Se só importar a posse?
Você sonha em me melhorar
Mas esse remédio me adoece
Eu só preciso subir
Até onde eu alcançar
Eu fluo e sumo quando sinto
Me use enquanto gostar

Enquanto eu for banal
Me dispense do seu lado
Como um embrulho belo
Como quem troca de canal
É difícil me entender e não insisto
Com você tenho mais medo
Quanto mais eu me arrisco
Mas não critique meus sonhos
Eles são irremediáveis
Eu vou te cavar fundo
Até constar no seu dicionário



(S. Mayflower)


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Flor


Temperatura ardente, característica da estação. Não suam as árvores de troncos finos, mas sofrem com o tempo de seca. Olhando para a paisagem, onde o solo se mostra a passarela de corpos magricelos, há algo... ali... O sol conversa com as folhas secas, “O que é isto?”. Em meio ao estio, há uma flor intocada pela estação.
Bate o vento com força berrante, fazendo dançar alguns galhos fracos. No chão, a marcha das folhas abandonadas, o tumulto das cores avermelhadas. Como uma troca de vida, uma despedida aos seres movidos pelo vento. E, naquela mudança, encaram todos, sussurrando entre si, “Porque parece tão viva?”. No vai-e-vem da transição,  uma flor intocada pela estação.
Temperatura decrescente, tola neve cai na gente. Cobre o cenário com um manto branco; que tentação, não é, Monet? Um enorme quadro em branco. Enquanto o austral se estende no final de junho, algumas árvores e plantas que não dormem cobertas pela neve reparam naquele ponto, no canto, um borrão do artista. “O que ela ainda faz aqui?”. Pinta o quadro uma flor intocada pela estação.
E agora vivem as cores! Um mar de novidade, a diversidade das luzes refletidas! Uma em tantas outras porém se deprime, deslocada, por ver que não é única, nem a mais bela. Se não é aqui seu sonho, é em outro lugar, desfazendo pesadelos alheios. Para aquela flor, tocada pela estação, seu pesadelo é primavera.


ZUZU PAILLAC

O Carro


''Dentro da noite veloz...''


 Um carro corre veloz na minha rua, às 4 da manhã de uma segunda fria e chuvosa. Justo na minha rua, tão calma e vaga. Vraummmmmm (é o som que o carro faz). Começa baixo como um aviso, depois cresce, torna-se intenso e some rápido, mas vibra. Vraummmm, vraummmm, vraummmm, o barulho do carro gira na minha cabeça. O carro acelera meu coração. Um carro corre em mim na madrugada.
 Dormi, acho que desmaiei por tantas horas que não estava mais em mim, vi o que comumente não vejo pois estou dormindo. Acho que levei a vida toda pra acordar na hora que todos dormem e ouvir um carro passando na minha rua. Me senti estranho, desnorteado. Há tanto eco no meu silêncio e no descanso de todos que o carro é quase um abuso. Não que ele se importe, correndo sozinho na madrugada. Mas ele não estava mais sozinho, eu o ouvi, eu acompanhei sua trajetória efêmera ao passar na minha rua!
 Éramos como os dois únicos sobreviventes de um apocalipse Morfeu. Eu só o tenho, eu só o contemplo. Será que ele me contempla? Percebo que a minha janela está apagada. Se estivesse acesa, será que ele me notaria? Ou me acharia um intruso na sua longa jornada noite adentro? Foi bom que estivesse apagada, ainda que eu não me destacasse e que ele parta achando que está sozinho. Mas se todas estivessem acesas e apenas a minha apagada, será que ele me notaria?



(S. Mayflower)



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Plástico Bolha


Vou do sorriso à gargalhada, mas eu me sinto um paulistano
P!
Quer me retratar, siga meu silêncio
R!
E quem já me ouviu calada sabe que é, ele é tudo que eu tenho
E!
Procurando um Deus de qualquer religião pra culpar
S!
Ou levantar da cama botando fé em cada dia
A!
Num casulo de ferro, ou cofre de senha perdida
Como quiser chamar...
Mas creio que fui embrulhada desse modo –confesso sou frágil-, justamente, em alguns minutos, tudo há de se espocar


ZUZU PAILLAC

The Art of Lie... The doors



by Nemo Jonez

I've been postponing death
Since I was born
Cuz I'm looking for so long
To be fucked hard
There's no place to hide it
No stage to perform
You had the word of lying
And I drank it with coke

Art has to be the gasoline of mind's fire

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

On The Road


 Pararam duas caminhonetes no posto de gasolina, desceram dois barbudos de couro e jeans. Seguiram quase juntos na loja de conveniências, as caixas suspiraram fundo. Abriram uma cerveja, papo vai, papo foi, beberam e riram no meio fio até anoitecer. Com os olhos cruzando e tontos, cambalearam se segurando pela cintura até o banheiro onde fizeram um sexo bêbado, sujo, suado e soturno, e infernalmente divertido.
  Acordou um com a luz do sol entrando pelo basculante e uma garrafa de uísque vazia na mão. O cabeludo afastou a bunda do peludo da sua cara e foi zonzo até aonde tinham estacionado quando encontrou as vagas vazias. Bateu a cabeça na parede tentando se lembrar como os carros foram roubados, sem se lembrar do auge da porra-louquice quando tiraram as calças e jogaram as chaves pela janelinha. Os dois frentistas franzinos, ao verem voar as chaves do banheiro no meio da noite, decidiram tirar os uniformes e fugir naquele instante, para viverem seu amor longe dali.
 Os dois andaram, correram, engordaram e deixaram o cabelo e a barba crescer. Num posto de gasolina, 3 estados depois, duas caminhonetes bem deterioradas, sujas de lama até o teto entraram chiando para que a história desse seu rumo. Nus em pelo.

Raquel

Raquel, malandra como o gato félix...

A estrela exigiu 200 toalhas brancas para o camarim do seu show. A feirante Raquel exigiu de si mesma que vendesse no mínimo 200 toalhas de banho, de rosto, rendadas, calcinhas e qualquer coisa de pano naquela semana para que conseguisse um ingresso de camarote.
 Ninguém mais da feira ia. Suou muito pra conseguir ficar no varandão, admirando superior o show, quando viu na pista, bem embaixo dela outra feirante bem acompanhada. Já tinha tomado algumas e o ódio lhe subiu na cabeça, sendo que a primeira coisa pesada que alcançou foi uma lixeira de metal, que mirou lá de cima na cabeça da Raquel, que já estava nos braços do Adolfo.
 A cabeça se quebrou como uma abóbora e o sangue formou uma poça de groselha. O Adolfo atônito. Generalizou a confusão, o show parou mas nem por isso a maluca fugiu, apenas se afastou da dispersão. Na gritaria, uma senhora indignada gritou: ''Que tipo de pessoa faria uma coisa dessas?'' a Assassina respondeu :''As loucas.''.
 A polícia chegou e ela lá, satisfeita...

sábado, 27 de outubro de 2012

Sem Título I de Zuzu

Meus pais migraram para o sul A solidão invadiu a sala Bom dia, Brasil Saímos de casa pra nos encontrar, pelos passos jovens que sonhamos O futuro é água Mas deixei a chave e fui com fé Apoiado em sapatos velhos e ideias da moda Onde está minha mulher? Numa estrada de bolas de cristal, que encontro justo o quê, sua traição em pleno varal Um urubu me seguiu Cheguei onde nenhum homem chegou Mesmo às vezes que eu –e continuo- duvido muito do Senhor Meu verso dói Da manga da cidade eu vejo mágoa Todo o sorriso bate e volta, me despenteia Quando fica nua a tua rua esnoba e magoa, lanchando com Deus Entre paredes sou mais bonito Ninguém nunca mais amou covardes como eu Se digo que não sei te amar, sem ter amado Se é a cidade inferno eu sou adeus

''Diálogos''


Foram bons risos e olhares
Foram bons códigos e dedos entrelaçados
Foram banheiros e escadas
E dores e arrepios
Foi irmandade, foi charme
Foi cumplicidade
Foi ver da janela de um jeito diferente
Foi sua mãe e seus cães
Almofadas rasgadas
Foram lambidas -suas e do seu cachorro-
Foi o cigarro que você enrolou com cuidado
Só pra se exibir
Foi a cueca samba canção e o jogo de futebol
Foi a caneca de cerveja e o espaço no meio fio
Os óculos
Além disso-
Voz rouca que eu fiz
E correr pra pegar calças jogadas
A carteira de marlboro red que ficou na sua cabeceira
E a sua mãe encrencou
Mas principalmente o calor
O peito quente
As pernas quentes
Carnes quentes
Foi a morenice e seu irmão
A nudez pornô-chanchada
Que seu cachorro observava
E o despertador tocou
São seis e meia
Ainda posso pegar o metrô
-Você dorme.

O outro me largou.
É uma pena e sempre foi
Que eu não seja ótimo e não saiba
Que ria, disfarce e saia
E que fique sempre assim
Entretanto eu não sei a saudade
Que foi de charmes
E favores
E olhares

Boulevard


Uma garota estagnada, pobre garota rica, escrevendo, tentando escrever uma história pra se satisfazer, sem conseguir, no seu quarto à noite, chove, troveja, ela está completamente sozinha com seus demônios, personificados em bonecos de pelúcia que mantém, ela não sabia de nada, do que havia além da sua porta, ela não sabia de nada e tinha medo de saber, de romper a parede e tudo desabar. Da janela ela via no fim da rua pois era como um diamante gigante: Boulevard. E imaginava como os jovens se divertiam e eram livres e ela tão presa em si mesma, porque não tinha a aprovação do espelho, da mãe, de vozes que a diziam 'não' e como num pesadelo a voz lhe faltava e a impedia de gritar de volta. O tremor lhe paralisava as pernas, mas devia ser bom, ela pensava, ser livre sem se importar, ser perfeito por ser imperfeito, mas não era. E ela chorou, trovejou, deitou sozinha e chorou, cheia de si mesma, cheia de tudo, presa em seu medo.

-


Em Boulevard, porém, a energia sexual se transmitia de uma forma ainda muito tensionada, quase por susto. Em um corpo solitário em meio ao grupo se debatia o ímpeto de procurar por algo mais, ou algo certo. E do terraço observava as milhares de janelinhas que se acendiam e apagavam, que eram vidas que se acendiam e apagavam. Apesar da promiscuidade fresca, boba, e pequenas drogas e becos escuros que se tornam cada vez menos assustadores, um garoto, largado na classe média o quão urbana se pode ser, em tanto cinza e preto resgatava o romance, e era bom. Ele, que rompera com casa, paredes e limites, pois queria estar em todas as casas e não estar em nenhuma, sentiu vontade de estar entre quatro paredes, domesticado, em dominação mútua com o ambiente, sem desafio. Não sabia o que isso se chamava, mas era bom, finalmente. Olhando as milhares de janelinhas a serem suas, indagou: ''Mas será que o amor da nossa vida está no lugar em que queríamos estar?''

Amor Marginal

'''Se o sorriso passar e o desejo passar como uma sede que passa: deixar passar ou passar a frente do passar que há no desesperar do vento soprar lá e tirar o que já há e que há de haverá? Será que há? Sei lá.'' S. Mayflower


Por algum modo e razão que não sei bem explicar, minha família acabou conseguindo comprar o apartamento que fora de minha avó e onde eu havia vivido quando criança. Havia um desejo contido em mim que me atraía a aquele apartamento, lembrava do seu longo corredor escuro com paredes infiltradas e como eu tinha medo. Acho que eu tenho saudades da inocência ou do aquário da minha avó. Só não lembro por qual motivo, precisei hospedar um bon vivant, intelectual drogado, que na tal noite preparou e tomou em doses exageradas uma tal sopa de feijões alucinógenos, ou algo assim, e estava se embalando na suite, nu, peludo e barrigudo. Fui vê-lo e ouvi o barulho de chaves girando do outro lado do apartamento, como num pressentimento, e vendo o estado de meu companheiro, julguei que deveria correr e me trancar no banheiro, senão a culpa de sua overdose cairia sobre mim. Do banheiro de decoração motelística eu ouvia a confusão e os reflexos bêbados do meu hóspede (e que hóspede), e refleti: eu o amava, porém, me escondia. Eu o queria bem, mas não queria que a sua felicidade fosse de minha responsabilidade. Mas ainda sim, esperava pelo seu melhor. Era um amor marginal, pensei, toda vez que ele fala baixinho no meu ouvido coisas que eu não entendo.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

La Femme de Chambre


 de S. Mayflower

  Um dia, alguém que não se viu passou por debaixo da porta de todos os quartos do hotel um envelope rosa. La Femme de Chambre, que Deus a tenha, ia limpar os quartos quando viu os bilhetes e se intrigou, por que o remetente vinha da França? O pior tinha acontecido. Teve que ir de quarto em quarto, temerosa, buscando os envelopes que enfiou um a um no seu avental , antes que alguém os lesse. Correu até estar a salvo na lavanderia, onde rasgou os bilhetes e os jogou junto com a roupa suja na máquina de lavar. Pôde suspirar aliviada por algumas semanas, segura de que ninguém havia visto os envelopes, até que um dia a chamaram na gerência. A reclamação não era sobre bilhete algum, mas sim porque ela andava relapsa demais. Acentuaram que ela era a camareira modelo, a funcionária mais antiga do hotel, a grande mãezona de todos. Ela sorriu mas não queria. Difícil era não se distrair com a angústia batendo forte como o vento da praia que morava quando era moça, e agora estava tão longe de tudo.
  Mais tarde, nos seus aposentos, teve que confessar a si mesma: O acordeon do bar lhe fazia falta e a falta lhe azucrinava. Mesmo avó, ainda era a menina de olhos esbugalhados que tomava banho no Mediterrâneo. Mais que isso, ela havia rasgado os envelopes em pedaços bem grandes e os molhado (e não queimado ou triturado) porque tinha esperanças de que um dia fossem achados e mesmo com dificuldade, fossem lidos e eternizados. Porque os bilhetes eram cartões postais do acordeonista do bar, que os passou por debaixo das portas para deixar pública a história de amor que eles haviam tido e que ela tentava esconder, que em Nice ela não era tão formal como enquanto camareira, e que só tocava acordeon no bar para estar perto dela, mas desistira e partiria, em breve.
 Ela não precisava de mais. Teve um homem que pulava três lances de escada e atravessava a aldeia sob a luz da lamparina só para abraçá-la por trás e fazer seus cabelos da nuca se arrepiarem e as madeixas voarem com o vento violento que vinha do mar. Não há, no mundo, razão alguma para que qualquer amor não exista. Mas paradoxal que ele é, também não há como ele existir como as outras coisas existem. Por essa força que não se explica nem controla, ela teve de fugir e correu louca pela aldeia, chegou no hotel e mudou o rumo da sua vida. Mesmo quando ele a seguiu, lutou por ela e sofreu em silêncio, ela o negou. Ainda era tão jovem e boba quanto quando escapara do amor e agora via ele escapar. Então ela, boba que era, morreu, mas deixou um amor inteirinho pra ser vivido.